Seletividade alimentar infantil: por que a equipe multidisciplinar faz toda a diferença

A seletividade alimentar infantil é uma queixa frequente nos consultórios e costuma gerar grande angústia nas famílias. Recusa constante de alimentos, repertório alimentar restrito, dificuldade com texturas, cheiros ou consistências e episódios de choro ou engasgo durante as refeições são sinais que não devem ser ignorados, especialmente quando impactam o crescimento e o desenvolvimento da criança.

Esse quadro é ainda mais comum em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A seletividade alimentar, nesses casos, não é uma simples preferência ou “fase”, mas uma condição multifatorial que envolve aspectos comportamentais, sensoriais e motores.

Seletividade alimentar vai além da escolha

Muitos pais acreditam que a criança não come porque “não gosta” ou porque é resistente a experimentar novos alimentos. No entanto, em grande parte dos casos, a dificuldade está relacionada à forma como o corpo e o cérebro da criança processam os estímulos.

A rigidez comportamental, comum em crianças com autismo, pode dificultar a aceitação de mudanças no prato. Além disso, questões sensoriais fazem com que determinadas texturas, temperaturas ou odores sejam extremamente desconfortáveis. Há ainda situações em que a criança apresenta dificuldades na mastigação ou na deglutição, tornando o ato de comer um verdadeiro desafio.

Por isso, insistir ou forçar a alimentação não resolve o problema e pode gerar ainda mais aversão.

Por que a equipe multidisciplinar é essencial?

O tratamento eficaz da seletividade alimentar infantil exige uma abordagem multidisciplinar, na qual diferentes profissionais atuam de forma integrada, cada um olhando para um aspecto específico da dificuldade da criança.

A psicologia tem papel fundamental na compreensão do comportamento alimentar, da rigidez, da ansiedade e das respostas emocionais da criança diante do alimento. A terapia ocupacional atua na parte sensorial, ajudando a criança a tolerar e explorar diferentes texturas, cheiros e sensações. A nutrição trabalha o aumento do repertório alimentar e a adequação nutricional, enquanto a fonoaudiologia avalia e trata questões relacionadas à mastigação, deglutição e motricidade orofacial.

Quando esses profissionais atuam juntos, o tratamento se torna mais eficiente, seguro e respeitoso com as limitações e o ritmo da criança.

O ambiente familiar também faz parte do tratamento

A seletividade alimentar não é tratada apenas no consultório. A rotina da família, os hábitos à mesa e a forma como os alimentos são oferecidos têm impacto direto no sucesso do tratamento.

Orientações parentais fazem parte do processo terapêutico. Comer sem distrações, como televisão ou celular, manter uma postura adequada durante as refeições e oferecer alimentos que façam parte da rotina da família são medidas simples, mas fundamentais. A criança precisa entender que o momento da refeição é um espaço de aprendizado, segurança e previsibilidade.

Quando buscar ajuda especializada?

Os sinais de seletividade alimentar podem surgir ainda na introdução alimentar. Bebês que choram ao tocar o alimento, que vomitam, engasgam com frequência ou rejeitam de forma intensa determinadas consistências já demonstram sinais de alerta.

É importante diferenciar preferência alimentar de seletividade alimentar. Nem toda recusa indica um transtorno. A seletividade se caracteriza quando a criança não consegue experimentar, apresenta sofrimento intenso ou reações físicas e emocionais desproporcionais diante do alimento.

Quanto mais precoce for a avaliação, maiores são as chances de ampliar o repertório alimentar e evitar prejuízos nutricionais e comportamentais a longo prazo.

Alimentação impacta o desenvolvimento como um todo

A alimentação está diretamente relacionada ao desenvolvimento físico, cognitivo e emocional da criança. Uma nutrição inadequada pode afetar a atenção, a aprendizagem, o crescimento e até o comportamento.

Por isso, tratar a seletividade alimentar infantil de forma precoce e com uma equipe especializada, especialmente no cuidado de crianças com autismo, é um investimento na saúde e na qualidade de vida da criança e de toda a família.

A seletividade alimentar tem tratamento, e ele começa com informação, acolhimento e um olhar multidisciplinar. Cada criança é única — e o cuidado também precisa ser.

Dra. Camila Lessa – Psicóloga

Especializada em autismo e equipe multiprofissional pelo Albert Einstein e possui certificação em Seletividade Alimentar por Madrid, além de pós-graduação em Análise do Comportamento. Referência no atendimento a pessoas no espectro, é coautora de Autismo: Uma Jornada Consciente e autora de Autismo: Muito Além do Diagnóstico, unindo técnica e sensibilidade no cuidado às famílias.

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